Métodos contraceptivos

Saúde e contracepção de pessoas trans

4 de dezembro de 2020 | Por: Redatora E aí, rolou?

Muitas vezes, a saúde e a contracepção das pessoas trans não é explorada de forma abrangente.

Pensando nisso, por saber a importância da educação sexual e do direito da população ao acesso a métodos contraceptivos e à sexualidade desconstruída, abordaremos as principais dúvidas presentes no universo trans.

Contracepção de pessoas trans

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, as pessoas trans também podem engravidar, inclusive aquelas que fazem tratamento hormonal de afirmação de gênero.

Embora a terapia hormonal possa diminuir a fertilidade, um homem trans que toma testosterona (hormônio masculino), por exemplo, não está imune à gravidez, afinal, o tratamento isolado não é um método de contracepção. 

Tendo isso em vista, mesmo tomando hormônio masculino, é possível que a ovulação aconteça até no homem trans que já parou de menstruar. Por isso, é importante se consultar com um médico de confiança para definir qual o melhor método para o seu caso.

É importante deixar claro também que o risco de engravidar está ligado à relações sexuais entre pessoas de sexos biológicos diferentes.

Pessoas que têm relações sexuais exclusivamente com pessoas do mesmo sexo biológico não precisam se preocupar com contracepção – o que não exclui a necessidade de se precaver quanto à ISTs. 

Métodos contraceptivos para quem está fazendo um tratamento hormonal

Afinal, qual o melhor método contraceptivo para conciliar com o tratamento hormonal trans? Na verdade, não há um método isolado.

Segundo especialistas, as pessoas trans e não-binárias que foram atribuídas ao gênero feminino ao nascer podem optar por qualquer método contraceptivo disponível para mulheres cisgêneras, as quais se identificam com o  gênero atribuído no nascimento. 

Tendo isso em vista, homens trans que estão fazendo tratamento hormonal também devem recorrer a métodos de contracepção caso queiram evitar a gravidez, afinal, como já foi dito, o tratamento hormonal isolado não impede que a pessoa engravide.

Lembre-se que é muito importante conversar com seu médico antes de escolher um método contraceptivo, pois apenas um especialista poderá avaliar seu quadro de maneira individualizada e, assim, indicar o melhor método para o seu caso.

Tudo sobre terapia hormonal para pessoas trans

Para te auxiliar a entender como funciona a terapia hormonal de afirmação de gênero e sanar algumas dúvidas, confira os tópicos a seguir!

Mas, antes disso, é importante ressaltar que cada pessoa é única e que as orientações acerca da terapia hormonal devem ser feitas de maneira flexível e individualizada, sempre priorizando e preservando o contato entre médico e paciente.

Nunca tente fazer terapia hormonal por conta própria, procure sempre um profissional da saúde para te auxiliar nesse processo. 

Quais são os hormônios sexuais e quais as diferenças entre eles?

A produção de hormônios e esteróides sexuais pelo organismo de um indivíduo saudável depende do seu sexo biológico. 

Os principais hormônios sexuais são os estrógenos, progesterona e testosterona. Eles são sintetizados a partir de precursores químicos como a androstenediona e a dehidroepiandrosterona (DHEA). Nas mulheres, essa produção ocorre principalmente nos ovários e, ou nas glândulas adrenais.

Já os homens produzem esses mesmos hormônios em quantidades diferentes , nas adrenais e, ou testículos.

Quimicamente, esses hormônios compartilham uma estrutura básica em comum, e se diferenciam a partir de uma série de processos químicos.

Funcionalmente, eles se diferenciam pelos seus efeitos nos respectivos tecidos-alvo, estando o estrogênio mais ligado aos caracteres sexuais secundários femininos e os androgênios (DHEA, testosterona e dihidrotestosterona) mais ligados aos caracteres sexuais secundários masculinos, porém, não sendo exclusividade de um sexo biológico ou de outro. 

Efeitos do estrogênio e da testosterona produzidos naturalmente

O estrogênio, quando produzido naturalmente, exerce os seguintes efeitos:

  • Proliferação da camada interna do útero (endométrio);
  • Regulação da secreção de gonadotrofinas pelo hipotálamo e hipófise;
  • Sensibilização da musculatura uterina à ação de ocitocina;
  • Aumento da produção e alteração das características  do muco no colo uterino;
  • Estímulo de multiplicação das células dos folículos ovarianos (células da granulosa) para uma ovulação adequada;
  • Crescimento das mamas durante a adolescência, coloração dos mamilos e parada do fluxo de leite;
  • Ação no fígado com redução de colesterol total e LDL (colesterol ruim) e aumento de HDL (colesterol bom) e regulação da produção de fatores pró-coagulantes e anticoagulantes;
  • Neuroproteção do sistema nervoso central;
  • Fechamento de epífises de ossos longos, resultando em interrupção do crescimento na puberdade;
  • Estimulação do trofismo e da vascularização dos órgãos genitais

Já as ações fisiológicas da testosterona decorrem do resultado dos efeitos combinados da mesma e de seus metabólitos ativos. As principais funções dos andrógenos incluem:

  • Desenvolvimento do fenótipo masculino fetal durante a embriogênese;
  • Regulação da secreção de gonadotrofinas pelo hipotálamo e hipófise;
  • Estimulação da maturação sexual na puberdade e manutenção durante a idade adulta;
  • Aumento da massa muscular e óssea na puberdade e manutenção durante a vida adulta;
  • Fechamento de epífises de ossos longos, resultando em interrupção do crescimento na puberdade;
  • Manutenção de menor massa gorda (em comparação com mulheres e homens hipogonadais);
  • Início e manutenção da produção de espermatozoides;
  • Aumento e manutenção da produção das células vermelhas do sangue. 

Efeitos físicos acarretados pelo tratamento hormonal trans

O objetivo usual da terapia hormonal transgênero é induzir mudanças físicas para corresponder à identidade de gênero. Tendo isso em vista, quando uma pessoa inicia o tratamento, a meta é manter os níveis hormonais na faixa fisiológica normal para o sexo alvo.

A seguir, confira quais são os efeitos físicos acarretados pelo tratamento hormonal nas pessoas trans:

Mulher trans (male-to-female – MTF)

Embora um objetivo da terapia seja reduzir as características sexuais secundárias masculinas induzidas por hormônios, a eliminação completa não é possível.

Nas mulheres trans, os efeitos dos andrógenos no esqueleto, como tom de voz e maior altura, tamanho e formato dos pés, mãos, mandíbulas e pelve, não podem ser revertidos.

Confira os efeitos físicos acarretados pelo tratamento hormonal em uma mulher trans:

  • Entre os primeiros três e seis meses, há uma possível diminuição do desejo sexual, além de taxas menores de crescimento de pelos faciais e corporais. O crescimento de barba em homens adultos é muito resistente à inibição por intervenção hormonal combinada e, especialmente em indivíduos com ascendência européia, geralmente são necessárias medidas adicionais, como depilação a laser ou eletrólise para eliminar pelos faciais;
  • Haverá crescimento inicial do tecido mamário, que começa quase imediatamente após o início da administração de estrogênio. O desenvolvimento mamário é tipicamente máximo aos dois anos de terapia hormonal. Algumas mulheres trans podem relatar sensibilidade e desconforto nos mamilos durante o período de crescimento das mamas;
  • A privação de andrógenos (hormônios masculinos) leva a uma atividade reduzida das glândulas sebáceas e pode resultar em pele seca ou unhas quebradiças;
  • Após a privação de androgênio, há um aumento na gordura subcutânea e uma diminuição na massa corporal magra. O peso corporal geralmente aumenta;
  • A atrofia dos testículos (se não removida cirurgicamente) e da próstata ocorre ao longo de muitos anos.

Homem trans (female-to-male – FTM)

Existem várias consequências da terapia hormonal em homens trans. A testosterona causa crescimento de pelos no padrão masculino e aumento da massa magra, massa muscular e gordura. Além disso, causa crescimento em estruturas da linha média, como a laringe e o clitóris .

Confira todos os efeitos físicos acarretados pelo tratamento hormonal em um homem trans:

  • O desenvolvimento dos pelos segue o padrão observado nos meninos na puberdade: primeiro o lábio superior, depois o queixo, depois as bochechas. O grau de crescimento dos pelos pode ser previsto a partir do padrão em membros masculinos da mesma família. O mesmo se aplica à ocorrência de calvície masculina;
  • O aprofundamento da voz pode ocorrer devido ao crescimento da orofaringe e pode ser irreversível;
  • A administração de andrógenos leva a uma redução na gordura subcutânea, mas aumenta a gordura abdominal. O aumento da massa corporal magra é, em média, de 4 kg e o aumento do peso corporal pode ser maior;
  • A acne ocorre em aproximadamente 40% dos pacientes, semelhante à observada em homens hipogonadais que iniciaram o tratamento com androgênio após a idade da puberdade normal;
  • O aumento do clitóris ocorre em todos, mas o grau é variável;
  • Alguns indivíduos notarão um aumento no desejo sexual; 
  • A administração de andrógenos pode causar uma diminuição no tecido glandular mamário;
  • A altura relativamente mais baixa e a configuração mais ampla do quadril de homens trans, em comparação com homens não trans, não mudam com o tratamento com testosterona.

Uma pessoa trans tem que tomar hormônio a vida toda?

Para a preservação dos caracteres sexuais secundários desejáveis que surgem com a utilização da terapia hormonal e que conferem identidade de gênero, o tratamento deve ser mantido ao longo da vida. 

É importante ressaltar, porém, que o acompanhamento das eventuais complicações e a prevenção primária de doenças como câncer de mama, câncer de colo uterino, câncer de próstata, osteoporose e doenças cardiovasculares deve ser rigorosamente feito.

Caso o risco/benefício não favoreça a continuidade da terapia e o indivíduo em tratamento esteja de acordo, ela poderá ser interrompida. 

O tratamento hormonal afeta a vida sexual de um paciente?

Para as mulheres trans, a terapia hormonal feminilizante pode reduzir o desejo sexual, a função erétil e a ejaculação entre mulheres trans.

Algumas optam por reduzir as doses hormonais para equilibrar o grau de feminização com o nível da função sexual, enquanto outras relatam não haver necessidade de ajustes na dosagem. 

Para os homens trans, pode haver aumento do desejo sexual. Em contrapartida, ocorre atrofia e ressecamento do epitélio vaginal, que pode ser desconfortável para alguns pacientes.  

Após a cirurgia genital, a função sexual (desejo sexual, excitação, dor no sexo e orgasmo) é variável para mulheres trans e depende da função sexual pré-operatória, do tipo de cirurgia realizada e do status hormonal.

É importante ressaltar que cada pessoa tem a sua própria vida sexual particular e única, e assumir que algo terá impacto positivo ou negativo no desejo sexual é uma atitude falha.

O desejo sexual vai além de normas e papéis pré-estabelecidos, e se manifesta de formas diferentes em cada pessoa e situação. Novamente, o seu médico ou médica pode ajudar a responder eventuais dúvidas e remediar eventuais problemas. 

Quais são os riscos do uso de hormônios sem prescrição médica?

Pacientes transgêneros precisam de acompanhamento por equipe multidisciplinar, a qual deve incluir, no mínimo, endocrinologista, psicólogo e psiquiatra.

Historicamente, alguns transgêneros se automedicam com hormônios por várias razões, incluindo medo de rejeição pelos prestadores de serviços de saúde, atrasos no início da terapia hormonal e custo do tratamento.

Esta automedicação deve ser informada à equipe multidisciplinar que cuida do caso para uma avaliação mais precisa dos potenciais riscos. 

Dessa forma, as doses dos hormônios serão adequadamente manejadas com o objetivo de mantê-los em níveis fisiológicos para o gênero com o qual o paciente se identifica. Além disso, deve-se levar em conta que o uso indiscriminado de hormônios pode levar a doses excessivas ou, mesmo, insuficientes. 

As doses excessivas podem gerar piora do perfil lipídico, maior risco de fenômenos tromboembólicos, como trombose venosa profunda, infarto e AVC, comprometimento da função cardíaca, maior risco de câncer de mama, próstata e endométrio, maior risco de alterações hepáticas, como peliose hepática e câncer de fígado, maior risco de transtornos de humor, como ansiedade e depressão, e alterações indesejadas da composição corporal.

Por esses motivos, é tão importante procurar profissionais respeitosos e de confiança antes de tomar qualquer remédio ou outras medidas mais drásticas. Afinal, apenas especialistas poderão te orientar de forma individualizada e, assim, propor as melhores opções para o seu caso.

Referências:

Dr. Guilherme Borges, endocrinologista, médico pela 58ª Turma de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (2010-2015), médico Residente em Clínica Médica – Hospital das Clínicas/Universidade Federal de Goiás (2016-2018)

Deutsch, M. B. (Ed.). (2016). Guidelines for the primary and gender-affirming care of transgender and gender nonbinary people. University of California, San Francisco.

Bizub, B., & Allen, B. (2020). A Review of Clinical Guidelines for Creating a Gender-Affirming Primary Care Practice. WMJ, 119(1), 8-15.

The Editors of Encyclopaedia Britannica

Estrogen, PUBLISHER Encyclopædia Britannica, DATE PUBLISHED: August 29, 2014, ACCESS DATE : November 18, 2020.

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